As mudanças climáticas raramente são associadas ao destino final de uma simples sacola de lixo, mas essa ligação é bem mais direta do que parece. Felipe Schroeder dos Anjos, como engenheiro ambiental, apresenta que o problema começa muito antes da coleta, na forma como os resíduos orgânicos e os recicláveis são descartados juntos, sem qualquer separação prévia, criando uma mistura que se decompõe de maneira descontrolada assim que chega ao destino final.
Quando esses materiais chegam a um lixão a céu aberto, iniciam um processo de decomposição que libera gases diretamente na atmosfera, entre eles o metano, um dos principais agravantes do aquecimento global. Nas próximas linhas, detalharemos como esse mecanismo funciona na prática e por que a gestão de resíduos deveria ocupar um lugar central nas estratégias climáticas.
O que acontece com o lixo quando ele chega a um lixão comum?
Um lixão convencional não passa por impermeabilização do solo nem por qualquer controle sobre os gases gerados internamente. Resíduos orgânicos, como restos de alimentos, papel e podas de jardim, começam a se decompor em contato com bactérias que atuam sem a presença de oxigênio, em um processo conhecido tecnicamente como decomposição anaeróbia.
Tal como informa Felipe Schroeder dos Anjos, esse tipo de decomposição produz biogás, uma mistura composta majoritariamente por metano e dióxido de carbono. Como não existe captação desse gás em lixões irregulares, ele se acumula sob a massa de resíduos e, aos poucos, escapa para a atmosfera através de rachaduras no solo ou diretamente pela superfície exposta do terreno, sem qualquer barreira de contenção.
A relação direta entre resíduos mal geridos e as mudanças climáticas
O metano liberado neste processo tem um potencial de aquecimento muito superior ao do dióxido de carbono em um horizonte de poucas décadas. Isso significa que cada tonelada de resíduo orgânico decomposta sem controle contribui, proporcionalmente, mais para o desequilíbrio térmico da atmosfera do que a mesma quantidade de CO2 emitida por outras fontes conhecidas.
Essa característica do metano é o que torna os lixões um ponto de atenção subestimado nas políticas ambientais. Em vista disso, Felipe Schroeder dos Anjos retrata que enquanto as emissões industriais recebem maior visibilidade e metas específicas, muitos municípios ainda tratam o destino final do lixo como uma etapa puramente operacional, dissociada da discussão sobre mudanças climáticas.
Os efeitos práticos da decomposição inadequada de resíduos
Além do impacto direto sobre o clima, a decomposição descontrolada de resíduos gera consequências que se espalham por diferentes áreas da vida urbana. Esses efeitos nem sempre são percebidos de imediato, mas se acumulam ano após ano em regiões próximas a lixões irregulares, afetando diretamente comunidades vizinhas. Entre eles, se destacam:
- Contaminação do solo e da água: o chorume produzido na decomposição infiltra no terreno e pode atingir lençóis freáticos próximos;
- Aumento de doenças respiratórias: a queima espontânea de metano em lixões libera fuligem e outros poluentes no ar;
- Perda de áreas produtivas: terrenos usados como lixões dificilmente podem ser reaproveitados para agricultura ou moradia;
- Custos públicos crescentes: a remediação ambiental de áreas degradadas exige investimentos muito superiores aos de uma gestão preventiva.

Aliás, Felipe Schroeder dos Anjos ressalta que esses impactos, somados, tornam a inação mais cara do que qualquer investimento em infraestrutura adequada de destinação final. Ou seja, o custo de não agir aparece de forma distribuída, mas constante, no orçamento público e na saúde da população local.
Como aterros sanitários e coleta seletiva reduzem esse impacto?
Aterros sanitários, ao contrário dos lixões, contam com impermeabilização do solo, tratamento do chorume e sistemas de captação do biogás gerado internamente. Em muitos casos, esse gás captado é queimado de forma controlada ou convertido em energia, o que reduz drasticamente sua liberação direta na atmosfera e diminui a pressão sobre o clima.
A coleta seletiva atua em outra ponta do problema, separando resíduos orgânicos antes que eles se misturem ao restante do lixo. Conforme menciona o engenheiro ambiental, Felipe Schroeder dos Anjos, quando a fração orgânica é tratada separadamente, por compostagem ou biodigestão, o volume de metano gerado em aterros e lixões cai de forma significativa ao longo do tempo.
O destino do lixo já é uma decisão climática
No fim das contas, considerar os resíduos apenas como uma questão de limpeza urbana desconsidera seu peso real na crise climática atual. Por isso, cada decisão sobre descartar, separar ou tratar o lixo produzido diariamente impacta, ainda que em graus distintos, a quantidade de metano lançada na atmosfera ao longo das próximas décadas. Assim, o curso das mudanças climáticas depende tanto de políticas industriais quanto de escolhas cotidianas relativas à gestão de resíduos.
