Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, observa que um dos paradoxos mais recorrentes na gestão de resíduos urbanos é o fato de que muitas pessoas têm boa vontade para separar o lixo, mas erram na execução por falta de informação clara e acessível sobre o que cada cor de lixeira representa.
O sistema de cores para coleta seletiva existe no Brasil há décadas, mas sua comunicação para a população ainda é fragmentada, inconsistente entre municípios e raramente acompanhada de orientações práticas sobre os casos de dúvida mais frequentes.
Neste artigo, esclarecemos o que cada cor significa, onde a confusão é mais comum e o que determina se um material vai realmente ser reciclado após o descarte.
O sistema de cores e o que cada uma representa
O sistema de identificação de resíduos por cores no Brasil é regulamentado pela Resolução CONAMA 275/2001, que estabelece um padrão nacional para a identificação de coletores e transportadores de resíduos. Pela norma, o azul identifica papel e papelão, o vermelho identifica plástico, o verde identifica vidro, o amarelo identifica metal e o marrom identifica resíduos orgânicos. Ademais, o cinza é reservado para rejeitos não recicláveis, o laranja para resíduos perigosos, o branco para resíduos de serviços de saúde e o roxo para resíduos radioativos. Na prática, porém, os sistemas de coleta seletiva municipais frequentemente simplificam esse padrão, utilizando apenas dois recipientes, um para recicláveis secos e outro para rejeitos, o que gera confusão nos munícipes acostumados ao sistema completo de cores.
Conforme esclarece Marcello José Abbud, a inconsistência entre o padrão nacional e os sistemas locais de coleta é uma das principais causas de erro na separação de resíduos pela população. Na prática, um morador que se muda de um município com coleta seletiva de quatro frações para outro que opera com apenas duas lixeiras tende a manter o comportamento anterior, descartando materiais de forma inadequada para o novo sistema sem perceber a diferença. A falta de comunicação ativa dos municípios sobre as regras locais de separação é, nesse contexto, um gargalo que compromete diretamente a qualidade do material coletado.

Os erros mais comuns e seus impactos no sistema de reciclagem
Os erros de separação mais frequentes têm impacto direto sobre a eficiência das usinas de triagem e sobre a qualidade do material enviado para reciclagem. Papel e papelão contaminados com restos de alimento, como caixas de pizza gordurosas ou embalagens de fast food com resíduos orgânicos, chegam às usinas em condições que inviabilizam sua reciclagem. Plásticos com restos de produto, como frascos de shampoo ou embalagens de iogurte não enxaguados, reduzem a qualidade do lote de plástico coletado e aumentam o volume de rejeitos gerados na triagem.
Conforme expõe Marcello José Abbud, outro erro recorrente é o descarte de materiais compostos, como embalagens cartonadas de leite e suco, em lixeiras de papel ou de plástico, quando, na verdade, esses materiais têm rota de reciclagem específica e separada dos demais. A ausência de informação sobre esse tipo de material composto é uma das causas mais frequentes de contaminação das frações de recicláveis coletados nos sistemas municipais de coleta seletiva brasileiros.
O que realmente determina se um material vai ser reciclado?
Separar corretamente é condição necessária, mas não suficiente, para que um material seja efetivamente reciclado. A existência de mercado para o material separado, a proximidade de indústrias recicladoras, o custo de processamento e a qualidade do material entregue são fatores que determinam se o resíduo coletado seguirá para reciclagem ou para o aterro. Materiais como o isopor, o plástico filme e alguns tipos de vidro são raramente reciclados no Brasil, não por falta de separação, mas por ausência de infraestrutura e mercado para seu reprocessamento em escala comercial viável.
Na avaliação do Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, comunicar essa realidade para a população de forma transparente é fundamental para construir uma cultura de separação mais consciente e menos frustrante. Quando o cidadão entende que separar corretamente é necessário, mas que o sistema como um todo precisa evoluir para processar o que é coletado, a motivação para manter o comportamento correto se sustenta mesmo diante das limitações estruturais que ainda existem na cadeia de reciclagem brasileira.
