Avanço de 58 posições em quatro anos não esconde o alerta: o índice médio global de liberdade de imprensa nunca foi tão baixo
O Brasil passou os Estados Unidos em liberdade de imprensa. Essa frase, que há alguns anos seria improvável, tornou-se realidade em abril de 2026, quando a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgou seu ranking anual. O Brasil chegou à 52ª colocação no último levantamento que avalia a liberdade de imprensa no mundo, crescendo 58 posições desde 2022 e ultrapassando, pela primeira vez, os Estados Unidos, que ocupa a posição 64, segundo a Agência Brasil. Na América do Sul, o país ficou atrás apenas do Uruguai, na 48ª posição. O avanço é real, verificável e expressivo. Mas o próprio diretor da RSF para a América Latina, o jornalista Artur Romeu, foi preciso ao contextualizar o resultado: trata-se de uma exceção positiva num cenário global de deterioração generalizada. Agência Brasil
O que alimenta o otimismo também alimenta a cautela. A pontuação do Brasil subiu cerca de 11 pontos em relação a 2025, impulsionada por melhorias em quatro dos cinco indicadores medidos pela RSF. O único que recuou foi justamente o que avalia a percepção de confiança da sociedade na imprensa, o volume de campanhas de ódio contra jornalistas, a pluralidade de opiniões refletidas nos veículos e a percepção de autocensura entre profissionais. Em outras palavras: o ambiente institucional melhorou, mas a relação entre imprensa e público enfrenta tensões persistentes. Esse dado é crucial para entender por que o ranking não deve ser lido como prova de saúde plena do jornalismo brasileiro, mas como um passo num processo que ainda tem muito caminho pela frente.
POR QUE O BRASIL SUBIU E O QUE ESSE AVANÇO SIGNIFICA NA PRÁTICA
O crescimento do Brasil no ranking está diretamente ligado a políticas adotadas nos últimos anos, entre elas a criação de um Observatório Nacional de Violência contra Jornalistas e a adoção de protocolos específicos de investigação de crimes cometidos contra profissionais da imprensa. Artur Romeu ressaltou que o crescimento do Brasil tem também relação com a degradação da situação em outras nações, como os Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump transformou os ataques aos jornalistas em uma prática sistemática, e a Argentina, que caiu 69 posições desde 2022 sob o governo de Javier Milei, segundo a Agência Brasil. Isso não diminui o mérito brasileiro, mas coloca o avanço em perspectiva: parte do progresso relativo do país é reflexo do retrocesso dos outros. Agência Brasil
Além dos dois países citados, o Equador registrou a maior queda na região, com 31 posições perdidas, em função do avanço do crime organizado que resultou no assassinato de três jornalistas no período. O quadro regional evidencia que a liberdade de imprensa não é apenas um direito conquistado, mas um espaço em disputa permanente, ameaçado por governos autoritários, crime organizado e pela própria lógica das plataformas digitais que concentram distribuição de conteúdo sem os mesmos critérios editoriais da imprensa profissional. O Brasil subiu no ranking, mas os jornalistas brasileiros continuam trabalhando em um ambiente que combina ameaças físicas em regiões de conflito rural e urbano com pressões econômicas que testam a independência editorial dos veículos.
O PARADOXO DA LIBERDADE: MAIS ACESSO, MAS MENOS CONFIANÇA
O dado mais revelador do ranking não é a posição do Brasil, mas o alerta da RSF sobre o cenário global: pela primeira vez na história do levantamento, mais da metade dos países do mundo se encontra em uma situação difícil ou grave em termos de liberdade de imprensa, e nos 25 anos em que o ranking é realizado, a pontuação média de todos os países nunca foi tão baixa, segundo a Agência Brasil. Esse dado é paradoxal num mundo em que nunca se produziu tanta informação e em que o acesso técnico ao conteúdo nunca foi tão amplo. A crise de liberdade de imprensa não é uma crise de acesso, mas uma crise de condições de produção: jornalistas sob ameaça, redações encolhendo, plataformas dominando a distribuição e governos de diferentes espectros tentando influenciar a cobertura. Agência Brasil
No Brasil, a relação entre imprensa e política segue marcada por episódios de tensão de ambos os lados do espectro. O debate sobre o PL 2.630 e as regras de moderação de conteúdo reacende periodicamente a discussão sobre os limites entre combate à desinformação e censura. A posição da Constituição Federal de 1988 é clara: o artigo 5º garante a liberdade de informação jornalística como direito fundamental, vedando qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística. Mas a aplicação prática desse princípio num ambiente digital cada vez mais complexo exige não apenas proteção jurídica, mas também capacidade econômica dos veículos e educação midiática do público para distinguir informação verificada de desinformação. O ranking da RSF registra um avanço real do Brasil. O trabalho de sustentá-lo é, em grande medida, o desafio do jornalismo para os próximos anos. Fontes: Agência Brasil | Repórteres Sem Fronteiras
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
