A conversa sobre saúde mental costuma se concentrar nos momentos em que algo já foi rompido: a crise instalada, o sofrimento manifesto, a busca tardia por apoio. Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista e especialista em saúde mental e das relações familiares, contribui para um ângulo diferente dessa discussão, voltado à identificação e ao cultivo dos fatores que protegem o equilíbrio emocional antes que situações de crise se instalem.
Investir na prevenção não significa acreditar que o sofrimento pode ser evitado por completo, mas reconhecer que existem recursos capazes de ampliar a capacidade de resposta diante das dificuldades. Compreender quais elementos sustentam o bem-estar emocional no cotidiano, antes que uma ruptura os torne visíveis pela ausência, é um exercício que amplia a autonomia de qualquer pessoa em relação à própria saúde mental.
Nos próximos tópicos, entenda como esse cenário pode ser analisado.
Por que a prevenção em saúde emocional é subvalorizada?
A cultura dominante em relação à saúde mental ainda é amplamente reativa. Os recursos de apoio, o acesso ao cuidado e até a disposição de buscar ajuda costumam ser acionados somente quando o sofrimento já atingiu um nível que interfere significativamente no funcionamento cotidiano. O que acontece antes desse ponto raramente recebe atenção equivalente.
Parte dessa dinâmica reflete uma dificuldade de reconhecer o valor do que está funcionando. Identificar os fatores que sustentam o equilíbrio emocional enquanto ele existe exige um tipo de atenção menos intuitivo do que perceber quando algo está errado. Conforme apresenta Taiza Tosatt Eleoterio, cultivar essa atenção preventiva representa uma mudança de perspectiva que tem impacto real sobre a trajetória emocional a longo prazo.
Como a qualidade dos vínculos afetivos influencia o equilíbrio emocional?
A pesquisa em saúde mental identifica, com consistência, um conjunto de elementos que atuam como protetores do equilíbrio emocional. Eles não garantem a ausência de sofrimento, mas influenciam a forma como as pessoas atravessam períodos difíceis e a velocidade com que recuperam algum equilíbrio depois deles.
Entre os fatores mais documentados, estão a qualidade dos vínculos afetivos disponíveis, a capacidade de nomear e expressar emoções, o senso de pertencimento a grupos de referência, a presença de rotinas que ofereçam previsibilidade e a percepção de que se tem algum grau de controle sobre as próprias escolhas. Conforme reforça Taiza Tosatt Eleoterio, a disponibilidade desses fatores não é igualmente distribuída, o que torna o acesso a eles também uma questão de proteção social.
Existem espaços de convivência onde sinto que minha presença realmente importa?
Reconhecer os fatores que sustentam a saúde emocional no cotidiano não exige vocabulário clínico. Exige, antes de tudo, a disposição de observar o que produz estabilidade, o que fortalece os vínculos e o que contribui para uma sensação de orientação diante das incertezas da vida.
Algumas perguntas podem funcionar como ponto de partida: há relações na minha vida em que me sinto genuinamente ouvido? Tenho espaços de convivência em que sinto que minha presença importa? Consigo identificar, com alguma clareza, o que estou sentindo antes de agir? As respostas não precisam ser definitivas, mas revelam com frequência onde os recursos estão disponíveis e onde estão mais frágeis.
O cuidado com a saúde emocional como prática contínua
A proteção da saúde emocional não é um estado que se alcança de uma vez. É um processo contínuo, que se constrói nas escolhas cotidianas sobre como se relacionar, como organizar o tempo e como responder às demandas que surgem. Investir nesse processo preventivamente, antes que situações de crise o tornem urgente, é uma forma de cuidado que tende a ser subestimada.
Na concepção de Taiza Tosatt Eleoterio, tratar a saúde emocional com o mesmo nível de atenção que se dedica à saúde física, sem esperar o surgimento de sintomas graves para agir, é uma das transformações de perspectiva mais relevantes que uma pessoa pode realizar em relação ao próprio bem-estar. Não como exigência de perfeição, mas como reconhecimento de que o equilíbrio emocional é um recurso que pode ser cultivado, protegido e fortalecido ao longo de toda a vida.
Essa mudança de perspectiva também tem reflexos coletivos. Famílias, escolas e comunidades que passam a valorizar os fatores de proteção emocional, e não apenas os sinais de sofrimento, contribuem para um ambiente em que o cuidado preventivo deixa de ser exceção e se torna parte natural da convivência cotidiana.
