Uma manhã com José Mário Austregésilo: dicas de um bom jornalismo

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Uma manhã com José Mário Austregésilo: dicas de um bom jornalismo

Foto: Divulgação/ José Mário Austregésilo em seu lançamento do livro: “Luiz Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta".

Na última quarta-feira (25), entrevistamos o mestre em comunicação e atual diretor de TV e Rádio da TV Universitária, o senhor José Mário Austregésilo. Ele é graduado em ciências econômicas pela Universidade Católica de Pernambuco (1970), além de ter mestrado em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (2005) Também atua professor do Departamento com social da Universidade Federal de Pernambuco, diretor de teatro – CASA DE PASSAGEM e possui doutorado em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco (2013), onde já prestou serviço a Fundação Roberto Marinho e a Companhia Hidro Elétrica de São Francisco. Nesta entrevista conversamos sobre a visão do jornalismo atual e as dicas fundamentais para um profissional em comunicação ser mais íntegro e reconhecido. 

1- Nos dias de hoje, como você ver o jornalista inserido nos meios de comunicação e na mídia?

José Mário Austregésilo: Olhe o jornalismo, ele já foi mais limitado, ao rádio e ao chamado jornalismo impresso. Embora o impresso seja o jornalismo mais antigo que você conhece. Se você for estudar a história do Jornalismo de Nelson Werneck Sodré, que tem um livro fantástico, o jornalismo impresso desde os pasquins (jornais de cunho satírico e politizado que fazia crítica ao governo durante a ditadura militar), dos folhetos, dos pequenos jornais até a chamada grande imprensa escrita, hoje ainda tem os jornais mais tradicionais: Washington Post nos Estados Unidos, o New York Times, na França tem o Le Monde, aqui no Brasil Diario de Pernambuco, Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo. Mas veja que esses jornais, principalmente no Brasil, estão minguando em quantidade de páginas, hoje você compra o jornal, até o de domingo que era mais “popudo”, mais cheios de páginas, eles diminuíram muito as páginas, por quê? Por que o Jornalismo migrou. A grande mudança, uma das primeiras mudanças do Jornalismo, foi o aparecimento da televisão, e o jornalismo impresso propriamente dito, também migrou para revistas especializadas, que são impressas, aí você vê revistas no campo de moda, medicina, economia, design, enfim. Então esse jornalismo impresso, propriamente dos jornais famosos migrou para revistas, e o jornalismo de rádio não se afetou tanto, ele ainda existe, mas diminuiu bastante, por que o jornalismo de televisão passou a ser um tanto mais, digamos assim, com imagem, além do som tinha a imagem, agora são iguais nem diferentes né? Por isso que hoje, não vamos fugir do termo de polivalência no jornalismo, por que hoje você pode ate ser um especialista em radio, impresso, televisão ou revista, mas o ideal é que você tenha uma polivalência pra atuar em qualquer meio. Agora, a tecnologia que mais ampliou o raio de inserção do jornalismo foi a internet, por que a internet criou o que você vai ver hoje de manhã no jornal, você pode abrir o Diario de Pernambuco de ontem, a Globo, Jornal do Brasil, pois já tem os jornais digitais, então isso ampliou muito. Mas assim como as revistas ampliaram os jornais impressos, apareceram os blogs, sites, radio, pois hoje qualquer pessoa pode ter sua própria radio na internet, e todas as rádios estão na internet, assim como a televisão. Então hoje com Youtube, Facebook, TuneIn, Podcast que inclusive está sendo muito incentivado, a internet ampliou muito, agora cada coisa dessas tem uma linguagem, por que uma coisa é você colocar puramente o texto, o blog é que pode colocar uma foto, mas o texto ainda predomina, mas aí você vai ter que dominar a linguagem jornalística, o texto jornalístico para rádio é um, o texto jornalístico para TV é outro, para um blog é outro, cada um tem uma forma, aquela objetividade. A televisão ampliou o rádio, o impresso foi ampliado, o aparecimento das revistas… Mas a grande explosão agora que está exigindo na profissão do jornalismo é a presença da internet que você se comunica com qualquer lugar do mundo.

2- Quais aos principais desafios que um jornalista ou um profissional de comunicação, pode ter no decorrer da sua carreira?

José Mário Austregésilo: O desafio antes, na preparação do jornalista, ele já tem desafios, antes dele ir ao mercado de trabalho, um jornalista que não lê, não é só notícia não, que não lê romance, poesia, artigo cientifico, artigo técnico, ele é um jornalista despreparado, principalmente se no futuro ele for um jornalista de cultura, e não participa do mundo cultural, não vai a shows, não vai a espetáculos de musica, não procura ter uma formação, esse é o primeiro grande desafio, ter preparo. Outra coisa, dentro do próprio meio é estar informado, o jornalista, antes, durante e depois, ele tem que ser um cara informado, ele tem que ouvir um bom jornalismo de rádio, aqui na Radio UNIVERSITÁRIA FM, o melhor jornalismo internacional tá aqui, a Rádio França Internacional, entra no ar às 8h da manhã, é uma aula de jornalismo pelo radio. Ouvir um bom rádio, cuidado com os programas policias que tem aí, tanto na TV como no radio, que são sensacionalistas. Outra coisa é lê jornal, se não pode comprar todo dia, compra uma vez por semana, pega um jornal usado, ou entra num site de jornal, que já é um pouco diferente, uma coisa é você ler um jornal no site, outra coisa é você pegar o jornal para ler. Outro desafio é ver boa televisão, eu diria que as TV’s educativas, a TV Pernambuco e a TV Universitária, tem uma boa programação em TV aberta, mas uma TV de boa qualidade você tem que ter uma TV por assinatura, por que você terá acesso a canais espetaculares, canais de documentários, o canal Curta, por exemplo, já exibiu um documentário de Sebastião Salgado, “o sal da terra”, é um documentário que você vai ver o que é um jornalista fotográfico. Você também pode entrar no ramo de fotografia, na televisão e no cinema, outra coisa é ver cinema também, um bom cinema, onde aqui em Recife você só vê no ETC, no Cinema São Luiz e no Cinema da Fundação. Então, é preciso ver coisas de qualidade, é ter que ir atrás do bom rádio, do bom cinema, da boa TV. Ler livros de história, como “Chatô” que é a história de Assis de Chateaubriand, e é inadmissível não ler o livro A História da Imprensa de Nelson Werneck Sodré. Outra coisa é criar o hábito da escrita, por que o hábito da escrita mais o hábito da leitura vai fazer com que você tenha um bom texto, esse é um grande desafio antes de você ir para o mercado de trabalho, no mercado de trabalho é você continuar fazendo isso para estar mais informado.  Então os desafios é antes se preparar, depois continuar trabalhando e começar compreender as próprias estratégias de técnicas do jornalismo, de ter cuidado ao revelar fontes, se for o caso, e dominar as técnicas de entrevista e também seguir a polivalência do jornalismo.

3- Você acredita que o jornalismo está passando por um processo de carência de notícias?

José Mário Austregésilo: Não, é o contrário, notícia é o que não falta. O problema é que o jornal, hoje, é selecionar a melhor notícia, por que tem que tomar cuidado, há notícias que determinados jornais que não querem que se publique, é a chamada espiral do silêncio, tem que ter cuidado com a agenda encoberta. O que tá acontecendo no mundo hoje, interessa a todo mundo, se a união europeia vai se unir ou não e vai fazer acordos com o Brasil ou não, isso são notícias que interessam. A questão do petróleo, da Rússia se aliando a países que os Estados Unidos são contra, o surgimento dos governos de direito radical nos mais de diversos países, não só na América Latina, mas também na Europa… Hoje não há problema de notícia, hoje o problema é a seleção de notícias que vão para o ar. Há outra coisa no jornalismo que é um desafio grande para o jornalista que tá começando, que é a chamada ancoragem da notícia, por que você dá a notícia puramente como ela aconteceu, até aí você esgotou o fato de informar, mas para você comunicar vem à ancoragem que é a interpretação de notícia, e é uma coisa nova no jornalismo de televisão. A primeira âncora de Pernambuco foi Graça Araújo e Aldo Vilela, eu era diretor da TV Jornal, o resto era notícia de informação, e o primeiro ancora nacional foi do SBT, Boris Casoy. Hoje todos os jornalistas, inclusive estão tirando o “boneco de dizer notícias”, está se entrando numa informalidade. Mas o mais importante que surgiu foi qual é dentro da notícia o que é que está sendo ancoragem, como é que a notícia está sendo interpretada, por que eu posso inverter a notícia. Então há lados que o jornalista tem que ter equilíbrio, por que ele não pode ficar nem de um lado nem de outro, e chegar à verdade.

4- Para você, quais as áreas do Jornalismo são mais vistas na sociedade? 

José Mário Austregésilo: Eu acho que o Jornalismo Investigativo é uma área que se destaca bastante, e é um jornalismo que durante muito tempo o jornalismo não explorou. O Jornalista vai atrás, ninguém sabe o que ele tá investigando e de repente ele traz a matéria de uma forma que termina ou ele indo para a cadeia ou sendo processado. Outro Jornalismo hoje tornou-se de certa forma popular, que não era há muito tempo atrás, que é o Jornalismo Econômico, trabalhar com dados econômicos, hoje a população tem certo interesse em saber quando as bolsas vão em queda, se vai afetar a população, quando o dólar sobe ou desce, que são os chamados indexadores da economia. Um deles é o salário mínimo, quando o salário mínimo sobe ele é um índice, a economia é afetada. Outro jornalismo super especializado é o Jornalismo Científico, que é você trabalhar com matéria ligada a ciência, medicina, astronomia, é um jornalismo que exige um conhecimento muito grande, você não pode não conhecer do que você está escrevendo, você não tem que ser um cientista, como você não tem que ser um político ou um economista, mas para você escrever sobre determinadas especialidades, você tem que ter no mínimo informação né.  

5- Na sua concepção, o Jornalismo por ser de um segmento mais sério e imparcial, tende a prosperar para outras áreas de comunicação como publicidade, cinema…? 

José Mário Austregésilo: Eu diria para você fazer um Jornalismo Cinematográfico ou Jornalismo Documentarista, tanto em rádio, televisão e jornal. O jornalismo migra, por que é importante uma pessoa ter uma informação jornalística para documentar uma história, contar uma história real. Um grande exemplo de jornalismo documentário é o “O sal da terra”. Um jornalista tem que está ligado em quem faz documentário, claro que quem é formado em cinema também faz. Então, eu acho que quando ele migra para essas áreas, é quando ele precisa trabalhar com a verdade, com o fato. Você pode ser um excelente jornalista documentarista, pode até escrever livros que sejam verdadeiros documentários escritos, há jornalistas especializados em escrever biografias, até de escrever autobiografias. Documentário é uma área do jornalismo.

6- Para concluir, para os iniciantes da profissão, quais dicas são fundamentais para ser um profissional mais íntegro e requerido pelas empresas de comunicação?

José Mário Austregésilo: Leia sobre ética, um bom jornalista é ético, a ética está profundamente ligada à verdade, ao comportamento correto, com quem você trabalha e para quem você trabalha, essa é a dica número um. Outra dica é estar permanentemente se preparando, se informando, lendo e participando de tudo, do que está escrito, do que está na televisão, no rádio. Ver bom filme, ver bom cinema, saia do circuito do cinema de shoppings e vá para o ETC, nele tem uma quinta-feira que tem os filmes da Europa, vá para o Cinema São Luiz, para o Cinema da Fundação, e você verá um bom cinema europeu. Entre na internet, você escolhe filmes de qualidade, agora a cadeia de exibição não. Leia bons livros, leia livros de formação de jornalismo, livros teóricos sobre jornalismo, existem muitos livros sobre teoria do bom jornalismo, leia principalmente técnicas de entrevista. O bisturi do jornalismo é saber entrevistar, é saber perguntar e saber ouvir. Outra coisa é: junta-te aos bons e serás um deles, junta-te aos maus, e serás pior do que eles. Tenha boas companhias, sem preconceitos, pessoas que te levem para frente. . Não fique na solidão, fique na solitude, com seu livro, com sua música, seu texto, no seu quarto. E viva a vida, essa é a grande dica, não se escravize ao trabalho, seja alegre, cultive a felicidade.

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